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Petiscos  |  Comunidade dos Gulosos!  |  Licores e coktails..  |  Tópico: Mais uma receita de Sangria (Tinta)
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Autor Tópico: Mais uma receita de Sangria (Tinta)  (Lida 69087 vezes)
JC_PT
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« em: Julho 31, 2006, 15:37:38 pm »

Este é o meu primeiro post no fórum e nada melhor que a secção de “Licores e Cocktails” para fazer uma primeira – longa, mas tímida – incursão.

Tenho, ao longo dos anos, dedicado algum tempo a aprofundar as origens históricas da sangria, entre muitas outras receitas. Não há muita documentação sobre o assunto: a sangria é bebida plebeia, parente muito afastada e em linha travessa dos cocktails mais reputados e cosmopolitas e, por tudo isso, não consta do reputado acervo da academia da misturologia.

Não faz mal, mais sobra para a imaginação.

Parece claro que a origem da palavra associa a cor do vinho tinto à do próprio sangue. E, pesquisando a partir da zurra valenciana – a sangria branca (ou zurracapote de Siete Aguas, lá perto) – é aceitável que atribuamos a origem da sangria, tal como a conhecemos, ao Sul da Península Ibérica, especialmente à Região da Andaluzia e ao nosso Alentejo. Os andaluzes mais velhos conhecem a sangria das tascas e associam-na, quase sempre, às artes da tourada: Sangre del Toro. Era barata de beber e ainda mais barata de fazer. Ainda hoje, nas tascas de Granada, onde pontuam as tapas e comidinhas mais elaboradas, é possível beber uma sangria à pressão (resultado óbvio de séculos de evolução, mas longe da receita original).

É uma bebida de “barba rija”, mas não admite – ao contrário do que se pensa geralmente – qualquer gaseificação na sua preparação. Lá chegaremos…

Já foi, como disse, uma bebida barata de preparar, recorrendo a ingredientes baratos e disponíveis nessas paragens: laranjas amargas (das laranjeiras bravas, típicos enfeites das avenidas das aldeias sulistas), aguardente, fruta da época – maçãs, peras e citrinos, açúcar. Tudo coisas à mão de semear e difíceis de replicar, em disponibilidade e qualidade, nos nossos dias.

Perdeu-se um pouco a tradição da sangria, forte e poderosa, trocada por aligeiramentos, mais ou menos adocicados, a 7UP ou Sprite.

A minha receita – e estou seguro que cada um terá a sua – parte da base fermentada para o preparado final.

Assim temos que a base, a mistela poderosa que restará, depois de bebido o todo o conteúdo do jarro, no fundo do mesmo, será sempre um preparado dos seguintes ingredientes: vinho, açúcar, aguardente e citrinos.

Começando pela aguardente.

Não recomendo aguardentes brancas. Têm muito cheiro, alterando por isso o resultado final, que se pretende oloroso e adocicado. Portugal, para nosso bem, produz aguardentes velhas únicas no Planeta. CR&F, Ferreirinha, Adega Velha são referências que podem ser substituídas – com sucesso – por parentes mais modestos e igualmente virtuosos. Tenho feito experiências com sucesso alguns, mais baratos, cognacs franceses, especialmente no que respeita a alguns menos doces que podem servir de substituto à cada vez mais cara aguardente velha.

O açúcar a utilizar já foi, noutras mesas de discussão, sobejamente discutido. Digamos que é preferível utilizar o já bastante disseminado e pouco refinado açúcar mascavado, seguido pelas variantes amarelas e – por fim, e em último recurso – o refinadíssimo açúcar branco. Estamos, lembro, a tentar fazer uma sangria que se aproxime da dos nossos seculares antepassados, e a refinação do açúcar é um processo moderno quando comparado com a idade da sangria. Há óbvias vantagens na utilização do açúcar mascavado, especialmente quando o que se pretende é um processo de fermentação que não poderá – a bem do almoço do dia seguinte – passar das 24 horas.

Os citrinos. A base de qualquer sangria tinta é a fruta cítrica. Laranja e limão primordialmente, mas são admitidas limas para “compor o ramalhete”. Para além disso podemos, na maceração inicial, incluir todas as frutas a que reconheçamos competência para adornar “olfactivamente” a nossa sangria.

Eu não costumo dispensar as maçãs: As Bravo Esmolfe têm açúcar suficiente para transformar qualquer sangria numa aventura calórica e olfactiva inolvidável mas, quando me dá para as dietas, costumo recorrer às reinetas, mais disponíveis e amargas. Em teoria qualquer maçã dá para fazer uma boa sangria, fazendo variar a quantidade de açúcar. Pêssegos, cerejas, uvas, peras e até as ameixas, ficam bem numa sangria em quantidades menores.

Falta o vinho, o pomo da discórdia dos sangriófilos mais abnegados..

O ideal é utilizar um vinho bom. Ponto.

A ideia, nascida do utilitarismo da receita original, que um vinho reles já faz sangria é simplista. É claro que, tendo a sangria origens humildes, faz pensar que idealmente teria de ser baseada em vinho igualmente humilde.

Faz sentido.

No século XVIII…

Hoje já não tanto. O vinho “da terra”, nos idos dos Reis, seria seguramente melhor do que os sucedâneos que nos é possível comprar por tuta-e-meia nos nossos supermercados. O ideal é recorrer a um vinho alentejano ou duriense de qualidade insofismável.

Não é preciso ir para os topo-de-gama. Não é preciso, nem recomendável, mas há vinhos que se deixam comprar por 3 ou 4 Euros e que fazem sangrias excelentes. Tenho recorrido ao “Quinta de Cabriz”, colheita seleccionada e ao “Alandra” – representante do Alentejo – com alguma regularidade e com bons resultados.

Vinhos claramente maus fazem más sangrias, onde pontuam os açúcares a mais, para disfarçar.

[tanta coisa e só agora começamos a preparar a dita..]

Primeiro ponto prévio – Não vale a pena fazer um litro de sangria. Há um mínimo crítico de massa a fazer, que durará uns bons 5 dias, e que serve para ir replicando a receita ao longo da semana. Assim recomendo que se arranje, nas muitas feiras e romarias do nosso Portugal (ou nas lojas dos nossos centros comerciais) um jarro que possa aguentar dois litros de sangria. Se for de barro que seja vidrado por dentro. A zurrapa – que está também na origem histórica da sangria – era a massa que se obtia na raspagem e limpeza dos recipientes de barro quando a higiene não era uma preocupação.. Um jarro de vidro dura uma eternidade e é fácil de limpar.

A Receita:

No fundo do jarro colocar laranjas, limões, maçãs e as frutas eleitas. Cobrir com açúcar e aguardente. Com uma colher de pau, um rolo da massa ou qualquer outro instrumento contundente, macerar o conteúdo até formar uma papa indistinta (ou até nos cansarmos).

Está feita a “massa” da sangria, o que restará no fundo depois de bebido o líquido todo, responsável pela fermentação mágica que fará então outra e outra sangria durante uns bons 5 dias, bastando adicionar metade dos ingredientes, açúcar e vinho.

Despejar, sem contemplações, duas garrafas de vinho para cima da mistela. Mexer tudo. Está feita a sangria. Passemos à parte em que podemos personalizar a “nossa” sangria..

Eu recorro, como os nossos antepassados, às laranjas amargas. Como as avenidas já não são decoradas a laranjeiras bravas, uso Cointreau. Não conheço substituto e já experimentei todos os triple-sec que pude comprar.
Uso também, como “secante”, um bom Gin: Gordon’s, Tanqueray ou Plymouth, a escolha é variada.

Há, entre os incondicionais, quem recorra ao aniz (não recomendo), whisky (também não) e vodka (ibidem). Vinho do Porto, em pequenas quantidades resulta bem, e até já tive sucesso com um pouco de Bols de pêssego, mas sempre em pequenas quantidades.

Cointreau e Gin, três golpadas de cada devem ser suficientes. Mexer.

Prova-se, a quente. Se estiver muito doce acrescente-se mais limão, se estiver muito forte, acrescente-se vinho. Quando estiver perfeitamente equilibrada, tapa-se com um pano limpo e vai para o frigorífico durante – pelo menos – 24 horas. A hortelã, preferencialmente as folhas pequeninas da ponta do ramo, podem “dormir” com a nossa sangria e pode-se acrescentar no dia seguinte umas folhas maiores, assim como rodelas inteiras de maçã e laranja, só para enfeitar.

E está feita a nossa sangria. Depois de beber tudo, e com a massa que fica no fundo do jarro, acrescenta-se um pouco de açúcar e vinho e metade dos ingredientes iniciais, e durante cinco dias pode-se “clonar” a mesma sangria. Depois, finalmente, estraga-se.

Perguntarão onde é que fica a gasosa nesta potente sangria. Fácil: no copo.

A sangria deve servir-se em copos grandes, só com gelo, para os mais aventureiros e afoitos e “cortada” com refrigerantes, na quantidade que se desejar, para as crianças, os condutores e os que têm outras coisas – que não dormir – para fazer depois do repasto. Para as crianças costumo “tingir” o copo com um pouco de sangria e atestar com 7UP ou outro tipo de gasosa.

A sangria é uma bebida de origens humildes, sujas e potentes que merece o nosso respeito e esforço na perpetuação da sua ibérica proveniência. Temos poucas coisas que podemos, com propriedade, chamar nossas: a sangria é uma delas.

Nos dias de calor que se aproximam, aproveitemo-nos desta nossa herança!

(Com as minhas desculpas pelo enormíssimo post inicial..)

JC
« Última modificação: Agosto 09, 2006, 13:48:43 pm por JC_PT » Registado

JC
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« Responder #1 em: Agosto 08, 2006, 13:57:03 pm »

Gostei da sangria e da informação!

é favor continuar, sai um pontinho!
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« Responder #2 em: Agosto 08, 2006, 15:49:16 pm »

 Wink Wink Wink Sai ponto...e lá andas tu com a laranja amarga !!!!!  Cheesy Cheesy Cheesy
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« Responder #3 em: Agosto 08, 2006, 16:04:19 pm »

Wink Wink Wink Sai ponto...e lá andas tu com a laranja amarga !!!!!  Cheesy Cheesy Cheesy

 Cheesy

Ninguém gosta delas, apodrecem no chão de algumas das nossas mais bonitas vilas (estou a lembrar-me de Cabeço de Vide, assim de repente) e mesmo assim houve alguém - em 1875 - que se lembrou de fazer fortuna à conta da casca da laranja amarga...

Mas o que seria das Margaritas, dos Sidecars, dos B-52's e das sangrias modernas sem o Cointreau?  Cheesy

Não é fixação juro! Wink
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JC
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« Responder #4 em: Agosto 08, 2006, 16:11:38 pm »

...eu adoro toranjas...como-as como se fossem laranjas normais...e os limões também marcham....não sou esquesita.... Cheesy Cheesy Cheesy Cheesy Cheesy Cheesy
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« Responder #5 em: Agosto 08, 2006, 16:26:55 pm »

epa'  tu comes a minha toranjazinha?HuhHuh?

ai se te apaho...eheheh


aquele abraco
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« Responder #6 em: Agosto 08, 2006, 16:30:16 pm »

...a tua ...é tua......não tasco...!!!!!  Cheesy Cheesy Cheesy
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« Responder #7 em: Agosto 08, 2006, 16:33:56 pm »

ufffffffffff...que alivio,nao e que tivesse algo contra,mas ainda ta cmg,mas sendo assim tou mais descansado          lol...


aquele abraco
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« Responder #8 em: Agosto 08, 2006, 19:21:29 pm »

Wink Wink Wink Sai ponto...e lá andas tu com a laranja amarga !!!!! Cheesy Cheesy Cheesy

 Cheesy

Ninguém gosta delas, apodrecem no chão de algumas das nossas mais bonitas vilas (estou a lembrar-me de Cabeço de Vide, assim de repente) e mesmo assim houve alguém - em 1875 - que se lembrou de fazer fortuna à conta da casca da laranja amarga...

Mas o que seria das Margaritas, dos Sidecars, dos B-52's e das sangrias modernas sem o Cointreau? Cheesy

Não é fixação juro! Wink
Eu vivo em Beja e cá há imensas laranjeiras, cujas laranjas apodrecem no chão... se quiseres passar por cá Grin Grin

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« Responder #9 em: Agosto 08, 2006, 19:45:54 pm »

Wink Wink Wink Sai ponto...e lá andas tu com a laranja amarga !!!!! Cheesy Cheesy Cheesy

 Cheesy

Ninguém gosta delas, apodrecem no chão de algumas das nossas mais bonitas vilas (estou a lembrar-me de Cabeço de Vide, assim de repente) e mesmo assim houve alguém - em 1875 - que se lembrou de fazer fortuna à conta da casca da laranja amarga...

Mas o que seria das Margaritas, dos Sidecars, dos B-52's e das sangrias modernas sem o Cointreau? Cheesy

Não é fixação juro! Wink
Eu vivo em Beja e cá há imensas laranjeiras, cujas laranjas apodrecem no chão... se quiseres passar por cá Grin Grin


O que faz todo o sentido. A parte lusitana da História da Sangria (assim com letras maiúsculas e tudo) desenrola-se em terras do Baixo Alentejo e Algarves.

No meu próximo périplo pelas terras da Pax Julia levarei seguramente cesto de vime para a colheita... Quem sabe se não consigo criar uma nova receita de licor de laranjas amargas para temperar a sangria à moda antiga.  Grin
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JC
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« Responder #10 em: Agosto 09, 2006, 07:16:48 am »

 Grin Grin Grin Grin Grin Grin
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« Responder #11 em: Agosto 09, 2006, 09:36:46 am »

E sai mais um pontinho! Wink
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« Responder #12 em: Agosto 09, 2006, 13:31:31 pm »

E sai mais um pontinho! Wink

Obrigado Lúcia!

A sangria - mesmo sendo a de vinho tinto - está a saber-me "que nem ginjas" hoje, debaixo desdes estafantes 36 graus...
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« Responder #13 em: Agosto 09, 2006, 13:33:10 pm »

E sai mais um pontinho! Wink

Obrigado Lúcia!

A sangria - mesmo sendo a de vinho tinto - está a saber-me "que nem ginjas" hoje, debaixo desdes estafantes 36 graus...

Tb bebia um copinho!!! não sei é se fiacava capaz para vir trabalhar!
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« Responder #14 em: Agosto 09, 2006, 13:43:21 pm »

E sai mais um pontinho! Wink

Obrigado Lúcia!

A sangria - mesmo sendo a de vinho tinto - está a saber-me "que nem ginjas" hoje, debaixo desdes estafantes 36 graus...

Tb bebia um copinho!!! não sei é se fiacava capaz para vir trabalhar!

Pois, tens toda a razão. Estou em vantagem em relação a ti só por estar de férias e não ter nada de "sério", "de responsabilidade" ou "muito importante" para fazer hoje... Cool

De qualquer das formas, como tentei explicar na receita (que é longa e chata de se ler) a sangria não leva qualquer gasosa na sua preparação. Apenas no copo. Por isso podias muito bem beber um copo, numa proporção de 1 parte de sangria para 3 de 7up ( ou se gostares muito de sangria doce, Sprite).  Wink
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JC
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